segunda-feira, 18 de agosto de 2014

INSONE
   Naquele sonho_ E em todos os outros da minha noite _ acabo percorrendo uma estradinha sinuosa até chegar naquela rua. O céu por lá é  bem fechado e o ar é tão pesado que me asfixia. As casas são sempre as mesmas choupanas paupérrimas, cujas janelas me olham ameaçadoramente. Não há sequer um sopro de brisa, mas minha pele está arrepiada, meu coração bate disritmado e o meu cabelo gruda na testa, encharcado de suor. Eu cheiro a medo. Pior, estou fedendo. O medo fede.
   Posso sentir-lhes a presença e isso me apavora. Tento acordar e botar a mente no comando. Tento sair da névoa que me envolve, mas estou plantada no meio da rua como um obelisco egípcio, cujo alicerce nem o tempo consegue abalar.
   A certeza de que, para qualquer lugar onde o sonho me leve, a estradinha vai estar lá como uma conexão, um portal que dá acesso ao lado sombrio do éter, é perturbadora, mas não tenho escolha. Preciso estar lá. 
Luto para acordar, me debato, tento gritar, mas ela, a estradinha, me traga como um ciclone. Sua força centrípeta me joga pra dentro daquela outra realidade.
 Meu sentido de visão se desloca para a pele, cada poro se transforma num nervo óptico. Consigo enxergar-lhes as carantonhas, cujos olhos injetados de sangue revelam sua ira. Suas vestes andrajosas variam do verde-musgo ao negro, seus dedos infantis possuem ventosas como gordas sanguessugas ávidas pelo meu sangue.
  Com o corpo retesado como um arco pronto para atirar, tento girar para evitar que seus hálitos podres bafejem
meu rosto... Inútil. Tento abrir os olhos para conseguir uma nesga de realidade... Inútil. Ouço um grunhido, é o sinal. Corro ou fico ali até que aquelas sanguessugas digitais se alimentem da minha carne. Finalmente solto a corda do arco. Corro. Uma chuva de pedras passa zunindo pela minha cabeça, um seixo pontudo atinge meu supercílio e a dor me faz arregalar os olhos. Por trás da cortina de sangue consigo vislumbrar uma luz difusa à minha frente. Corro. Corro mais. Chego à margem do rio onde o barqueiro me espera tranquilo, como se tivesse certeza de que eu voltaria incólume. Entro no barco e adormeço. Quando desperto não assimilo a realidade muito bem. Seus sons, seus cheiros, suas cores, me parecem tão frágeis...
     Lavo o rosto e com uma gaze limpo o sangue grudado no lado direito. Dessa vez foi por pouco. Troco os lençóis manchados, levo os sapatos para a lavanderia e aos poucos consigo uma nesga de realidade  na qual vou me agarrar até chegar a noite. Vou colando pedaços de cotidiano  na aspiral que é minha mente. Até a noite terei tecido um bom pedaço de realidade. E esse pedaço, costurado ao de ontem valerá quase uma meia- vida- real. Suspiro quase feliz, se conseguir sobreviver a mais esse dia, chegarei
lá bem rápido e quem sabe consigo fugir dela ( a estradinha). Às vezes tenho a impressão de ver uma portinhola ao lado da segunda choupana. É por lá que irei esta noite, se não der em lugar algum, talvez eu possa me esconder e descobrir o que eles sussurram quando passo.
    A noite demora e já não consigo segurar o cotidiano. È pesado demais. Corro na farmacinha do banheiro tiro o lacre da caixinha de tarja preta onde dois hexágonos de cor  malva me esperam com a promessa de sonhos leves. Quase acredito. Com um copo d'água empurro os dois, garganta abaixo, pego o seixo  que me rasgou  a testa. Ponho meus tênis de corrida, me posiciono embaixo dos lençóis e espero até o breu me tragar.
                                                                                             Márcia Brito


  Viagem
 
   Uma noite, depois de fechar o livro de Fábulas que eu lia para minha filha, dei-lhe um beijo no rosto e saí cambaleando até minha cama. Mal fechei os olhos, tive de abri-los novamente pois uma criaturinha fantástica da medida de minha mão, puxava meu cabelo. Era tão graciosa no seu vestido verde-ilusão! Suas pernas finas e perfeitas traçavam linhas extraordinariamente retas no ar. Fiquei maravilhada com suas asas que brilhavam como a luz de um vaga-lume e senti o impulso irresistível de abraçá-la. E a abracei com desespero sem poder soltá-la. Era como um desejo de infância satisfeito. Como se todas as bonecas que não ganhei em todos os natais, estivessem ali materializadas! Ela assustada diante daquele despropósito, me afastou delicadamente e falou com sua vozinha que parecia o tilintar dos sinos de vento da minha janela. Disse que veio para me levar a um passeio, na verdade, uma viagem a um mundo maravilhoso, algo assim como a Disneylândia para quem botou o pé na soleira do mundo adulto e perdeu o fio de ligação com a fantasia. Topei na hora, já imaginando que maravilhas iria conhecer! Pedi só um tempinho para  botar uma roupa mais apropriada. Antes que eu pudesse piscar, rodopiei e me perdi num túnel de aspirais coloridas e brilhantes. Senti que me desprendia do corpo, o coração estava quente como uma fogueira e um sentimento de angústia se espalhou pelo meu peito. Voltei então a ser a menina de oito anos presa no armário, nos dias de tempestade, com medo dos relâmpagos e trovões.
   Em seguida, as luzes enfraqueceram e eu viajei uns dez anos nessa espiral do tempo. Comecei a flutuar num imenso lago de juncos, peixes enormes e uma densa floresta de baronesas. Adquiri uma nova percepção e compreendi que o espaço está repleto de presenças e que tudo acontece simultaneamente em mais de um mundo, ou em todos os mundos, não sei ao certo.
   Continuando a viagem, vi uma adolescente encolhida e aterrorizada; estendi a mão para levantá-la. Era eu mesma!
  Diferentes épocas da minha vida passavam em imagens que giravam como num zootrópio. 
    Conheci uma senhora de cabelos prata, pequenina, de olhos doces, firme como um muro. Acho que também era eu. Como serei daqui a alguns anos, quando parar de tinturar os cabelos. Várias outras imagens se sobrepunham. Algumas reconheci, outras não.
    Após a última imagem, entrei numa espécie de ninho. Vazio e silencioso. Não havia estrutura de ninho, paredes, móveis, árvores, nada. Sabia que era ninho apenas pelo calor aconchegante que emanava do seu vazio. Sentia que era muito alto;  como um pássaro minúsculo, comecei a voar para o alto e fiquei observando o mundo de cima, livre, dona das minhas emoções, calma, relaxada, forte. Fiz um movimento espiralado para cima e alcancei um espaço ainda mais alto e silencioso, aí perdi tudo que pode ser considerado palpável, me dissolvi no éter. Não havia mais desejo, lembranças, sentimentos, sensações, espírito, consciência individual, nada. No entanto sentia uma presença divina e sabia que estava numa dimensão inalcançável. Fiquei assim por muito tempo. Não esse tempo que marca os nossos relógios. Outro estado de tempo.
   Aos poucos fui me refazendo, por partes como num mosaico. Resgatando memórias, consciência, sensações, como se tivesse acabado de nascer.  
    Longe um filete de luz me indicava um portal azul, rosa e dourado. A medida que eu  me aproximava, sentia um rejunte de cada átomo do meu corpo e quando atravessei essa passagem voltei a tomar consciência do meu corpo material. Anos luz depois o portal se fechou atrás de mim fui refazendo o caminho de volta flutuando numa luz violeta. Fiquei pássaro, percorri o espaço vazio do ninho, voltei a ser a anciã de cãs cinza- prata que ainda não sou, mergulhei nas core sutis da aquarela e girei no turbilhão de cores psicodélicas, por fim, voltei ao meu sonolento corpo que dormia há nove horas, um sono agitado por gestos incoerentes como, bater de asas, tentativa de voo, posição fetal, murmúrios incompreensíveis ou gritos insanos.
   Já no mundo fenomênico, de consciência recobrada, saboreei cada instante daquela viagem fantástica. A aventura com o minúsculo ser me invadiu de maneira tal que eu só posso classificar como algo divino.
   Ao me transmutar em pássaro, tudo era silêncio e luz. Perdi a fé na matéria, me entendi espírito. Nunca me senti tão lúcida como desde aquele momento em que recebi a visita da fada. Como lembrança desse momento mágico guardo apenas o pó brilhante de suas asas num vidrinho minúsculo que trago pendurado ao meu pescoço, amarrado com o invisível cordão da fé.
 
                                                                                                   Márcia Brito




                                     Dona coisa
 
                          Sou dona da minha casa.
                          Habituei-me à domesticidade dos meus dias,
                          o cotidiano me deixa segura.
                          Queria mesmo é ser  dona da minha vida.


                                      Márcia Brito



                                                               




 

                                                         Balanço


                            Estou sentada na tábua, segurando a corda.

                            Balanço pra cá, pra lá

                            e escuto o farfalhar das folhas

                            quando mexem os galhos.

                            Olho pra baixo, o abismo.
                            Sem medo continuo a balançar. 
                            Mais forte, mais forte, mais forte,
                            quase faço um loop.
                                          De repente compreendo o perigo. 
                            Memória traiçoeira!
                            As árvores foram cortadas
                            tem pra mais de vinte anos.
                           O balanço amarrado apenas às cordas das minhas lembranças... 
  
                 
                             
                                                                                     Márcia Brito