INSONE
Naquele sonho_ E em todos os outros da minha noite _ acabo percorrendo uma estradinha sinuosa até chegar naquela rua. O céu por lá é bem fechado e o ar é tão pesado que me asfixia. As casas são sempre as mesmas choupanas paupérrimas, cujas janelas me olham ameaçadoramente. Não há sequer um sopro de brisa, mas minha pele está arrepiada, meu coração bate disritmado e o meu cabelo gruda na testa, encharcado de suor. Eu cheiro a medo. Pior, estou fedendo. O medo fede. Posso sentir-lhes a presença e isso me apavora. Tento acordar e botar a mente no comando. Tento sair da névoa que me envolve, mas estou plantada no meio da rua como um obelisco egípcio, cujo alicerce nem o tempo consegue abalar. A certeza de que, para qualquer lugar onde o sonho me leve, a estradinha vai estar lá como uma conexão, um portal que dá acesso ao lado sombrio do éter, é perturbadora, mas não tenho escolha. Preciso estar lá.
Luto para acordar, me debato, tento
gritar, mas ela, a estradinha, me traga como um ciclone. Sua força centrípeta
me joga pra dentro daquela outra realidade.
Meu sentido de visão se desloca para a pele, cada poro se
transforma num nervo óptico. Consigo enxergar-lhes as carantonhas, cujos
olhos injetados de sangue revelam sua ira. Suas vestes andrajosas variam do
verde-musgo ao negro, seus dedos infantis possuem ventosas como gordas
sanguessugas ávidas pelo meu sangue.
Com o corpo retesado como um arco pronto para atirar, tento girar para evitar que seus hálitos podres bafejem |
meu rosto... Inútil. Tento abrir os
olhos para conseguir uma nesga de realidade... Inútil. Ouço um grunhido, é o
sinal. Corro ou fico ali até que aquelas sanguessugas digitais se alimentem da
minha carne. Finalmente solto a corda do arco. Corro. Uma chuva de pedras passa
zunindo pela minha cabeça, um seixo pontudo atinge meu supercílio e a
dor me faz arregalar os olhos. Por trás da cortina de sangue consigo vislumbrar
uma luz difusa à minha frente. Corro. Corro mais. Chego à margem do
rio onde o barqueiro me espera tranquilo, como se tivesse certeza de que
eu voltaria incólume. Entro no barco e adormeço. Quando desperto não assimilo a
realidade muito bem. Seus sons, seus cheiros, suas cores, me parecem tão
frágeis...
Lavo o rosto e com uma gaze limpo o sangue grudado no lado direito. Dessa vez foi por pouco. Troco os lençóis manchados, levo os sapatos para a lavanderia e aos poucos consigo uma nesga de realidade na qual vou me agarrar até chegar a noite. Vou colando pedaços de cotidiano na aspiral que é minha mente. Até a noite terei tecido um bom pedaço de realidade. E esse pedaço, costurado ao de ontem valerá quase uma meia- vida- real. Suspiro quase feliz, se conseguir sobreviver a mais esse dia, chegarei
lá bem rápido e quem sabe consigo fugir dela ( a estradinha). Às vezes tenho a impressão de ver uma portinhola ao lado da segunda choupana. É por lá que irei esta noite, se não der em lugar algum, talvez eu possa me esconder e descobrir o que eles sussurram quando passo.
A noite demora e já não consigo segurar o cotidiano. È pesado demais. Corro na farmacinha do banheiro tiro o lacre da caixinha de tarja preta onde dois hexágonos de cor malva me esperam com a promessa de sonhos leves. Quase acredito. Com um copo d'água empurro os dois, garganta abaixo, pego o seixo que me rasgou a testa. Ponho meus tênis de corrida, me posiciono embaixo dos lençóis e espero até o breu me tragar.
Lavo o rosto e com uma gaze limpo o sangue grudado no lado direito. Dessa vez foi por pouco. Troco os lençóis manchados, levo os sapatos para a lavanderia e aos poucos consigo uma nesga de realidade na qual vou me agarrar até chegar a noite. Vou colando pedaços de cotidiano na aspiral que é minha mente. Até a noite terei tecido um bom pedaço de realidade. E esse pedaço, costurado ao de ontem valerá quase uma meia- vida- real. Suspiro quase feliz, se conseguir sobreviver a mais esse dia, chegarei
lá bem rápido e quem sabe consigo fugir dela ( a estradinha). Às vezes tenho a impressão de ver uma portinhola ao lado da segunda choupana. É por lá que irei esta noite, se não der em lugar algum, talvez eu possa me esconder e descobrir o que eles sussurram quando passo.
A noite demora e já não consigo segurar o cotidiano. È pesado demais. Corro na farmacinha do banheiro tiro o lacre da caixinha de tarja preta onde dois hexágonos de cor malva me esperam com a promessa de sonhos leves. Quase acredito. Com um copo d'água empurro os dois, garganta abaixo, pego o seixo que me rasgou a testa. Ponho meus tênis de corrida, me posiciono embaixo dos lençóis e espero até o breu me tragar.
Márcia Brito

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